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25/11/2005

Rouxiboy

Acordo assustado e com sede. Eu ainda estou morrendo de sono, e por isso rezo para que não esteja atrasado. Alcanço meu celular – que é meu relógio, despertador, calculadora, conversor de medidas e às vezes é telefone também – e que surpresa boa: ainda não são nem sete horas. Tenho mais uma hora inteira de sono. Dou uns goles de água (ainda bem que eu sempre levo um copo cheio antes de dormir) e desmaio. Pi pi pi pi!!! Como assim?! Pulo da cama e me atiro até o celular! Não é possível! Mas faz um segundo que faltava uma hora. Ai, meu Deus. Fazer o quê? Levantar, oras. Não posso me atrasar outra vez.

Depois do banho e da escovação apressada, pego um todynho na geladeira e me mando para o adorável trânsito matinal de São Paulo. Um puta sol de verão resolve aparecer em plena primavera, justo quando meu ar-condicionado está quebrado. E não é só ele, meu rádio também não funciona há tempos. Fico escutando a melodia dos motoboys, buzinas e ônibus barulhentos, voando pela sua faixa exclusiva. Meia hora depois, suado, mal humorado, e pior, atrasado de novo, chego ao trabalho.

Só cumprimento em resposta aos que me cumprimentam. Estou mal humorado, já disse. Chego logo à minha mesa. Enquanto o computador liga, vou buscar um café. Não acredito. O cara mais pentelho da agência resolve pegar uma água no mesmo minuto. Tento ser o mais seco e direto possível, sem ser mal criado. Não é bom arrumar inimizades no emprego, assim como não se deve arrumar namoradas também. Onde se ganha o pão, não se come a carne. Nem se desdenha o osso.

Uma hora e meia depois penso na excelente idéia que foi ter pegado aquele cafezinho. Caso contrário estaria babando em cima do teclado. Devia ser proibido alguém trabalhar com tanto sono. Meu chefe está logo na minha frente, não posso bocejar mais de uma vez por minuto. Ele vai notar e reclamar. Sem contar que bocejo demais lacrimeja e avermelha os olhos: outro sinal do sono. Já sei! Vou lavar o rosto e dar uns tapas em mim mesmo. Levantar, por si só, já dá uma acordada, somado à água gelada e aos tapas, pronto! Ficarei como novo.

Onze e quarenta e cinco. Curioso como a fome mata o sono, e vice-versa. Não que mate totalmente, mas ajuda muito. Em ambos os casos. Muitas pessoas de regime vão logo para a cama ao invés de atacar a geladeira. E funciona. No meu caso, estou desesperado para que passem esses quinze minutos e possa ir almoçar, por isso esqueço o sono. É incrível também como o sol na cabeça e a longa caminhada até chegar ao restaurante parecem imperceptíveis na ida. Já na volta.... afe! É a via crucis sem a cruz nas costas.

A primeira hora após o almoço é a pior de todas as vinte e quatro do dia. O sono atinge seu clímax, como em um filme de suspense. A digestão é o momento em que o corpo mais precisa de energia – por isso o famoso cochilo dominical – e o paradoxo de tudo isso é que, justamente na digestão se produz a energia. Gastamos mais justamente onde fazemos (cada coisa curiosa...). E a situação se agrava nesse horário pois não tem mais café. Tiraram o que tinha – estava gelado – e ainda não chegou o novo. Vou ter que apelar. Entro no banheiro, abaixo a tampa, apóio os braços na pia formando um pseudo-travesseiro, deito a cabeça neles e advinha o que eu faço? ... Importante colocar alarme, caso contrário é capaz de arrombarem a porta três horas depois pensando que alguém teve um derrame lá dentro. Não pode passar de meia hora. Depende do tamanho da empresa.

O meio da tarde é uma incógnita. Já não tenho tanto sono e acabei o trabalho que me foi passado de manhã. Se não me entregarem mais nada, ótimo! Iupi! Saio daqui por volta das seis da tarde. Acontece que isso é raro. Eles sempre me passam alguma coisa. Só suplico que seja até umas cinco mais ou menos, para que eu tenha tempo de fazer. Acontece que isso também é raro. Eles sempre me passam alguma coisa perto da hora de ir embora. Parece que é de propósito. Eles contaram meus bocejos e tem uma câmera escondida no banheiro. Só pode ser isso.

Sete e pouco da noite consigo sair. Só então percebo o toró que está encharcando a cidade. Como eu adoro uma tempestade bem na hora do rush. Que idéia de São Pedro! Ele deve se divertir lá de cima vendo como fica o trânsito. É como o autorama dele, brincadeira de carrinhos. Boa, Pedrão! Já estou atrasado para variar. Tenho cinco minutos para chegar à minha aula, mas acontece que nunca demoro menos de trinta. Com esse tempo então. E o melhor é que ainda está quente, abafado como uma quentinha com marmita. Se abro os vidros, molho tudo. Se deixo fechado, embaça tudo e eu cozinho. Tudo bem! Vou adorar passar meu tempo parado na paulista, ouvindo o agradável canto dos motoboys.

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