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Sempre


Acordou sabendo que aquele seria o último dia. Acordou cedo. Mas não foi trabalhar. Tomou um banho gostoso, daqueles bem demorados. Lavou o cabelo umas três vezes. Ensaboou cada centímetro ao menos duas. Fez a barba, escovou os dentes e penteou-se de uma forma despenteada. Vestiu seu jeans preferido, uma camiseta branca e o all star. Saiu de casa sorrindo. Desceu as escadas correndo. Eram quase dez e havia muito a fazer.


Parou na padaria e pediu pão na chapa com requeijão. Para beber, suco. De laranja. Deixou o carro na garagem. Escolheu o metrô. Conseguiu se sentar. Sorte. Notou uma senhora chorando no banco em frente. Seus olhares cruzaram-se, ele apenas sorriu. Por um segundo ela parou de chorar. Desceu na luz.


Visitou a Pinacoteca pela primeira vez; justo no último dia. Apreciou o máximo que pode. Tanto quanto o churrasco grego que almoçou depois. Tinha medo. Hoje não faria mal. Fez a digestão caminhando no parque. Observou cada folha, cada pétala. Pegou o celular e ligou para alguns amigos, sem falar em despedida. Ao contrário: o tom era de recomeço.


Foi ao cinema cometer a loucura que sempre quis cometer: ir de sala em sala, vendo trechos de todos os filmes em cartaz. Reservou o melhor restaurante para jantar. Passou no crédito. Passou na casa dos pais. Levou torta de limão e pegou os dois de surpresa; de supetão. Comeram, riram, reviram seus álbuns de infância. Viram que o tempo passou.


Voltou para casa em cima da hora. Colocou a velha roupa amassada (melhor que qualquer pijama) e dormiu. Teve sonhos lindos, coloridos, completos. Mas sabia que dessa vez não se lembraria de nenhum. Como sempre. Como no último dia.



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