Olhos bem fechados…
Conferiu no mostrador quanto tempo de ar ainda restava em sua máscara. Quarenta e cinco minutos seriam suficientes. Saiu apressado, ganhou a rua adjacente e logo entrava no velho parque vizinho. Incrível como as árvores pareciam reais – como nos filmes. Foi ao canto escondido de sempre e, em poucos minutos, ela chegava. No abraço apertado podiam sentir o coração um do outro. Tocavam-se e roçavam-se freneticamente. O desejo beirava o incontrolável. Quando ameaçou arrancar a máscara, ela o deteve. Pediu que se acalmasse, pediu desculpas e sumiu no meio da paisagem artificial (com vontade verdadeira de ficar).
Ele saiu pouco depois. Enquanto caminhava, lembrou-se de um velho que engraxava sapatos a duas esquinas do parque. Restavam quase vinte minutos e somente uma pergunta para fazer àquele homem. Em cinco, o avistou. Dois minutos depois, puxava o assunto. Perguntou se, no passado, teria este senhor experimentado aquilo que ele tanto almejava. Queria saber como era. Se era como nos filmes. Se o mundo girava e tudo ao redor desaparecia. Perguntava empolgado, visualizava a cena. Quase sentia acontecer. O velho apenas sorriu e o lembrou: neste ar de hoje, ninguém passa de um minuto com vida.
Ao chegar em casa, correu para o carregador. Já aliviado, tentou ler um livro, mas não conseguiu se concentrar. Aquela imagem, no parque, não lhe saía da cabeça, e colorida com as tintas da imaginação, virava uma tela linda; de Chagall. Adormeceu e sonhou com ela. Sonhou com o seu desejo, um sonho gostoso e demorado. Quase perdeu o tempo da máquina, mas por sorte, o alerta de emergência funcionou, despertando-o com vida. Resolveu escrever para ela. O email marcava o encontro e a intenção por trás do mesmo. Ela tinha todo o direito de recusar; bastava não dar o ar da graça.
No dia seguinte, com o peito cheio de ansiedade, ele estava lá, mal conseguindo manter-se em pé. O tempo ia correndo, mas ele aguardava, imóvel. Alguma coisa lhe dizia que ela iria aparecer. Dito e feito. Ofuscada pelo intenso brilho do sol, uma silhueta aproximava-se dele. Já bem perto, olharam-se. Olhos nos olhos. Sorriram. Sem porquê. Sorriram muito. Não foi necessário dizer uma palavra sequer, tudo ou nada, de nada importava. Não ali, não naquela hora. Fizeram somente o que tinham de fazer. O beijo durou quase três minutos.
Cada vez mais afiado no seu estilo, belo.
ResponderExcluirbravo!
depois dessa nao consegue negar que tá apaixonado. caramba, fê, deu até vontade de dar um beijo de 3 minutos. ou 20, 30, 40. ou só um beijo mesmo. eu escrevi algo parecido ano passado mas em forma de poema. me lembrou bastante.foi mais ou menos como essa parte do final. inspirador. beijo na testa.
ResponderExcluirmuito bom mesmo. legal demais a ideia, romântico na medida. nada muito a ver, ou nem tão pouco a ver assim, me lembrou o brilho eterno.
ResponderExcluirOlá,
ResponderExcluirMeu nome é Duanne Ribeiro, eu sou editor da revista online de literatura e cultura Capitu (http://www.revistacapitu.com). Por cortesia da autora Talita A., estamos sorteando uma edição do "Blônica 2 - A Vez dos Leitores", de que você participou. Envio esse email para pedir a vocês que ajudem na divulgação da promoção, assim seus textos chegam a mais um leitor.
Contatei pelo twitter alguns e contato agora todos os que encontrei email. De alguns, só tive o blog e de outros não há contato. Se você puder avisar aos que não deixaram referência no livro, por favor, faça isso.
Mais tarde, vou atualizar o post da promoção com o link dos blogs de vocês. Se quiser indicar algum texto em particular, envie pelo email (olvra.ribeiro@gmail.com)
agradeço a atenção e aguardo resposta,
Duanne Ribeiro
http://www.revistacapitu.com
http://www.twitter.com/rcapitu
Posso falar?
ResponderExcluirEsse seu texto parece um daqueles filmes que de início ninguém entende nada e que a gente só vai compreender mesmo no final... aliás esses filmes são sempre bastante subjetivos e, justamente por serem incompreensíveis ou multicompreensíveis, permitem a cada um dar uma significação.
Pra mim esse universo de sentidos (que parece mesmo um sonho em vigília: meio desconexo com uma conexão surreal), denota muita inspiração, talento, mas principalmente amor. Não o conheço muito bem, mas pelos escritos percebo alguém que vive o amor, vive intensamente!
*um beijo. Parabéns!
Adorei sua forma de escrever, acho que é a primeira vez que leio algo escrito por você.
ResponderExcluirE sim, concordo com a Kel, dá vontade de dar aqueles beijos demorados.
Parabéns! :D
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