Presente
Entrou naquela casa como sempre fez desde pequeno, cumprimentou D. Cláudia com carinho de segunda mãe, e seguiu rumo ao quarto da garota, que hoje é praticamente seu de tanto entrar. Ao abrir a porta, ela estava – de novo – na cama.
– Vai, levanta daí. – Um som abafado pelo edredom respondeu algo inaudível. Ele insistiu: – Pô, Ju. Levanta meu. Por favor. – Repetido o som, desta vez escutado:
– Me deixa em paz... – sem ligar para a resposta e sentando ao pé da cama, continuou a argumentar:
– É sério, Ju. O que você ganha deitada aí? Já passaram duas semanas.
– A questão é o que eu não perco. – Paciente, ele deu trela:
– Ok. O que você não perde? – A resposta seguinte veio no tom mais amargo que aquela voz doce de menina jamais proferiu:
– Nada. Mas sempre que eu levanto ou ponho a cara para fora, alguma coisa dá errado. Já aqui? Não perco nada.
– Pára de besteira, garota. Vamos dar uma volta! Mudar esse cabelo, fazer compras na Zara, comer besteira no Burguer King... que tal?
– Péssima idéia. Odeio a Zara, meu cabelo é ruim e comer junkfood é tudo que eu preciso agora... Sai, vai. Me deixa.
– Só depois de te dar o que eu trouxe.
– Deixa aí na mesa... e pode ir.
– Não. Assim não tem graça.
– Hm. O que é? Me dá então.
– Mas não está aqui. Deixei no carro, você tem que descer pra ver.
– Boa tentativa...
– Você que sabe... é melhor eu ir então... – levantou-se e foi se aproximando da porta encostada, quando:
– Espera... É sério? Existe algo mesmo? – Ainda de costas, ele riu em silêncio. Contendo-se e virando para ela, balançou a cabeça:
– Ã-hã.
– Eu vou gostar?
– Tenho certeza que sim.
– Aiiiii... – tirando o edredom de cima do corpo, falou desconfiada e ele pode jurar que ela segurava um pequeno sorriso, meio Monalisa – Tudo bem. Mas eu vou de pijama, viu.
– Certo.
Minutos depois chegavam às vagas destinadas a visitantes. Com o controle do alarme, ele destrancou o carro. Ela, ansiosa, foi até a porta, abriu-a e correu os olhos por todo o interior do mesmo. Virou-se para trás, dizendo: - Mas não tem nada. Cadê? – Mal terminava a pergunta e já sentia dois lábios quentes e nervosos de encontro aos seus. Mencionou reagir, mas não era possível; não era preciso. Dois braços mantinham-na firme pela cintura. Aos poucos, dos lábios, surgia a língua. E dela, um prazer há muito esquecido. Lágrimas ameaçavam entreabrir seus olhos, os joelhos estavam frágeis feito porcelana, um esquentamento nas maçãs do rosto faziam-na crer que se alguém pudesse vê-la, estaria cor de romã... A sensação, de tão boa, era em si a certeza de seu próprio terminar. Não quis pensar no depois. Esqueceu o antes. Apenas saboreou o presente. “Como ele tinha certeza?”.
Aiquelindo! Muito doce o texto, Fê! Uma delicia de ler!
ResponderExcluirBeijos
Nya!!! Lindo!! Lindo!! Apaixonante!! Adorei =)
ResponderExcluirUm beijo
E ela ainda tem dúvidas de como ele tinha certeza?
ResponderExcluirFácil...simplesmente não existe presente melhor!
Nada como um beijo desses em que o mundo passa a ser apenas "alí". Cura qualquer mal!
ResponderExcluirDelícia de texto!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMeu Deus!
ResponderExcluirExtremamente emocionante!!!
E eu que não passava aqui há algumas semanas, redescubro o quanto você é bom nisso!
Me senti lendo uma trama de Lygia Fagundes Telles, ou de Pedro Bandeira... só que o seu estilo é um tanto mais "leve" do que literatura contemporânea nacional, mas a roupagem jovem segue a mesma linha dos autores mencionados com temas tão pertinentes quanto!
Você já pensou em publicar?
To falando sério!
huauhauha
**beijoos
P.S.: Tá mais pra Márcia Kupstas, talvez?
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