Doze
Deitada de bruços e rosto contra o travesseiro mal conseguia respirar. As lágrimas há muito já secas e a cabeça doendo de tanto pensamento; nojento, desprezível. Ainda se morasse num andar mais alto. Do quinto, a queda poderia apenas ferir, o que faria sua existência ainda mais nojenta e desprezível. Lembrou-se de uma frase de filme B, daqueles nojentos mesmo: se é pra pular, que pule do décimo segundo. Doze, é isso. Doze.
Saiu do elevador e tocou a campainha. Um por andar, a porta marcava cento e vinte e um. A empregada abriu com semblante curioso, e antes mesmo que pudesse dizer palavra, a garota do quinto andar saiu em disparada. Empurrou a porta com a empregada junto, correu pela sala, em direção à varanda de céu azul ao fundo. Mas, pouco antes de alcançar a porta de vidro, um jovem que assistia à TV se jogou contra ela. No chão, debatia-se, tentava se desvencilhar. Ele, mais forte, pedia calma. Quando conseguiu fazê-la parar de se debater, olhou a cena por completo. A porta escancarada, a empregada assustada, o caminho rapidamente percorrido, e o objetivo não concluído. Virou-se para ela e perguntou: por quê?
Meia hora depois tomavam chocolate quente no sofá. Eles nunca tinham se conhecido, ela era nova no prédio. Vez ou outra, ele olhava a varanda, garantindo que estivesse em boa posição novamente. Ela, nervosa e envergonhada, não tirava os olhos da xícara. E, monossilábica, apenas respondia às perguntas dele. Incomodada com o incômodo que ele demonstrava, garantiu: não vou pular. Não se preocupe, aliás, estou indo para casa. Olharam-se nos olhos no momento em que ela devolvia a xícara. Quis agradecer, dizer algo. Não conseguiu.
Dias depois, alguns amigos estavam jogados na escadaria da entrada do edifício. Turma idiota, jovens metidos, tirava sarro de um garoto estranho que se aproximava. Ao chegar à frente do prédio, o garoto estranho reconheceu a jovem do quinto andar em meio aos que o zoavam. Ela desviou o olhar, ele seguiu até o elevador (ainda ouvindo risadas maldosas), apertou o doze. Como num estalo, ela se deu conta. Xingou seus amigos - para surpresa deles, e mandou todos embora. Correu até o elevador. Novamente o doze, novamente um objetivo definido.
Saiu do elevador e tocou a campainha. A porta ainda marcava cento e vinte e um. Ao abri-la, a empregada soluçando, jogou-se no chão, sem conseguir dizer palavra. Atrás, a garota do quinto andar pode ver a cena por completo: a sala, a TV ligada, o sofá vazio, e ao fundo, a varanda de céu azul com a porta de vidro aberta.
:O sem palavras...
ResponderExcluirvery very very good!!
foi tão... tão... (o conteúdo) tão inesperado o desfeche... (a estrutura) tão bem tecida!
simples, mas intenso! muito visual. triste. seu texto transborda sentimento...
perfect!
vc e seus textos me impressionam a cada dia!!
beijo
"Aperto o doze que é o seu andar, não vejo a hora de te encontrar, e continuar aquela conversa que não terminamos ontem, ficou pra hoje"...
ResponderExcluirFicou.
Nossa!!
ResponderExcluirFalta o ar, faltam palavras!
Adorei!!
Beijo
um conto-novela. ou cinema: "a varanda de céu azul com a porta de vidro aberta". vou cobrar o romance daqui a pouco.
ResponderExcluirE como a vida dá voltas, não é mesmo? Pena que ao contrário dele, ela não chegou a tempo...
ResponderExcluirSomos o reflexo das escolhas que fazemos...
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