Passageiro
De pé, mochila nas costas, Radiohead nos fones de ouvido, olhos marejados do último bocejo, aguardando o ônibus chegar. Gosta de analisar as pessoas enquanto espera. (Passa o tempo e é divertido.) Aquela senhora dos pés tortos sempre conta com a cidadania que oferece o desconfortável assento de metal, embaixo do ponto. Sempre no mesmo ônibus que o dele, quase sempre no mesmo minuto. Um senhor de camisa por dentro da calça acaba de chegar. Não é tão velho quanto aparenta; seu aspecto surrado e marcas de expressão denotam que não foi só o tempo que acabara com sua juventude. O ônibus chegou.
Passam ali dezenas com o mesmo destino que sempre saem lotados, e a cada meia hora, chega o que o leva ao trabalho. Poderia pegar o outro, mas teria que andar mais e enfrentar a lotação constante. Prefere esperar. Sempre consegue um lugar. Abre o livro da vez. (Radiohead continua ritmando seu pensamento.) Termina a página e sente uma presença. Quando olha, ela o encara no mesmo segundo. Sim. É ela. E que ela. Uma garota encantadora. Ela sorri. Ele, abobado, perde a chance de sorrir de volta. Ela também está lendo.
De tempos em tempos, um dos dois faz questão de olhar o outro. Quando isso acontece, o alvo do olhar retribui, os olhares se encontram, e dão lugar a sorrisos sem graça. A cena se repete cinco vezes. Antes da sexta, ele tira os fones e pergunta o título do livro dela - é o começo de tudo. Até o destino (dela, um ponto antes do dele), já travaram um longo diálogo. O interesse mútuo cresce em progressão geométrica, e pela primeira vez na vida de ambos: desejam que o trajeto nunca chegue ao fim. Mas chega. Ela faz menção de se levantar, ele a segura pelo braço. Convicto, diz que devem seguir por mais um ponto. Promete acompanhá-la de volta. Ela aceita, eles se beijam.
Infelizmente, rápido chegam ao ponto final. Rápido também é o trajeto de um ponto ao outro. A pé. Aos beijos. A sós. No meio da grande avenida. É difícil parar de beijar, impossível largar as mãos, tortura ver o outro se afastar. Ela some na multidão. Ele segue na outra direção. No dia seguinte, espera por ela ansiosamente. E no outro, e no outro, e no outro. Após uma semana, já sabe que não a verá mais. Até hoje, ouve o mesmo Radiohead, observa a mesma senhora, senta no mesmo ônibus e desce no mesmo ponto. Mas sempre, no ponto anterior, ele se lembra. Ele se lembra do amor mais intenso que já viveu. Ele se lembra do amor mais passageiro que já conheceu. Intenso, de tão passageiro. Passageiro, de tão intenso.
É tudo passageiro!
ResponderExcluirRá!
Beijo, Fê!
Tudo continua igual, menos ele.
ResponderExcluirRealmente, um minuto muda o resto da vida.
Getting better every day!
ResponderExcluirBeijos, querido!
uauuu!!
ResponderExcluirfoi de tirar o fôlego de tão rápido e intenso.
que bom que ele a segurou, que bom que eles viveram esse amor... mais intenso do que muita gente viveu, e continua esperando a vida toda pra viver!
humm, você anda muito romântico ultimamente, rs!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluircorrijo: não exatamente romântico, daqueles utópicos, mas romântico no sentido de tratar do amor. mesmo que os amores dos eu-líricos sempre acabem em seus textos, vc trata de uma forma muito bela e agradável de se ler(e de se viver)! ^^
ResponderExcluirme sinto passageira deste mesmo ônibus, sou a moça de mochila nas costas que deseja secretamente um destes olhares, passageiros de tão intensos!
ResponderExcluirMas o que seria dos eternos frios na barriga se não fosse tudo mesmo efêmero não?
ResponderExcluirTambém não perco a fé nas pessoas... e em seus blogs!
Rs
Ótimo título, mas se o dia do genial não chegar sugiro manter esse.
Adicionei aos meus links ok?
Beijos
e a pergunta que não quer calar:
ResponderExcluirQual livro ela tava lendo?
caramba!
ResponderExcluireste texto me deixou meio sem fôlego...
sabe de uma coisa muito interessante? Acabei de comentar o post acima depois de algum tempo que não passava por aqui. E falei justamente desse seu dom de tornar a realidade em poesia, mas o contrário tbm acontece aqui.
Aqui realidade e imaginação se misturam. Se os personagens são reais ou fictícios não importa tanto assim, o que importa é que as imagens são claras e eu pude ver todas as cenas, posso dizer que até associei, em alguns momentos, com a minha vida, só falta um amor tão arrebatador assim! Só que no meu caso, acho que se ele aparecer vou pedir o telefone, não importa se perder a graça!
huahua