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Crônicas de um novo lar - texto 2



Amarelou



Papai me ligou às quatro da tarde. “Toma a vacina filho. Ribeirão é rota da doença de quem vai pra São Paulo.”, médico e preocupado com a “epidemia” de Febre Amarela, meu pai me aconselhava com seriedade. Desliguei o telefone e alertei meus colegas de trabalho em voz alta. A comoção foi generalizada, afinal, um médico disse; opinião de doutor é sempre levada a sério. Muitos concordaram, outros fizeram pouco caso, mas todos pararam para pensar. Sendo sincero: nem eu tinha a real intenção de me vacinar, apenas joguei o assunto no ar para ver no que ia dar. E deu.

Pelo visto não foi só meu pai que alertou algum residente de Ribeirão Preto, pois no dia seguinte, o prefeito da cidade fez uma declaração pública, dizendo que não deveríamos nos preocupar, a doença estava longe de Ribeirão e blá blá blá. Ficamos tranqüilizados por alguns dias, até que morreu o primeiro símio na região. De febre amarela. Fodeu.

Meu chefe chega uma bela manhã e nos convida para ir ao posto de saúde. Eu aceito. Pela sua determinação, aposto que era ordem da esposa. “Vai vacinar e pronto!”. E lá fomos nós dois (o resto da agência ficou, esperando, como se fôssemos bois de piranha). Detalhe importante: estava sem minha carteirinha de vacinação.

Chegando lá, numa quarta-feira às 10 da manhã, estranhei tamanha confusão. Tudo culpa do macaco, pensei. Havia tantas filas que eu não sabia por onde começar. Me sentia no brinquedo mais concorrido do parque de diversões. Fila de um lado, fila do outro, fila que passava por cima de fila e assim por diante; se você ficasse parado por mais de um minuto, alguém pararia atrás de você, formando uma nova.

“Qual é a fila pra febre amarela?”. “Segue a linha vermelha.”. Hum. Interessante... Seguimos a instrução e começamos nossa longa espera. É engraçado o que ocorre em filas como essa. Todo tipo de gente, pobre, rico, bonito, feio, cachorro, burro, todo mundo se junta e completa a maçaroca. O problema surge quando a fila não anda, ou quando algum conhecido de uma pessoa localizada à frente chega. Começa batendo papo, como quem não quer nada e pimba: roubou uma posição no grid. Advinha o que acontece? Aquela senhora atrás de você, de pantalona bege, se transforma em sua confidente e cochicha: “Que absurdo, né? Você viu o que eu vi?”. Se você não quiser aumentar os problemas, apenas confirme com a cabeça. Se tiver sorte, ela pára de falar. Mas o mais legal é botar lenha na fogueira: “Vi. E sabe do que mais? Ouvi dizer que não vai ter vacina pra todo mundo. Só falta acabar na nossa vez.”. Pronto. A velha fica puta e é capaz de dar com a bolsa no furão.

Boatos à parte, a danada da vacina acabou mesmo. Por sorte, antes que aquele lugar se transformasse na Tomatina, surge um ‘enfermeiro’ assustado carregando um carrinho com várias doses da droga. Nós, como viciados em abstinência, nos acalmamos, e a fila voltava à (des)ordem de antes. Com direito à mesma senhora puxando assunto de novo: “Ai, meu Deus. Será que é esse o moço que dá a vacina?”.

Uma hora depois da minha chegada, percebo que todas as filas que vi eram, na verdade, a mesma. Voltas e mais voltas, entra numa porta, sai na outra, pula os galões de oxigênio, vira à esquerda nos curativos e pronto: você ganha uma senha! Legal. Mais uma fila, mas pelo menos com a certeza de que vai ter vacina pra você. No mínimo, eles contaram a quantidade de senhas. Ou não.

A enfermeira, do tamanho de uma poltrona, diga-se de passagem, pega meu número e pede minha carteirinha. Explico a situação e ela não esboça reação. Antes que me olhe, completo: “estou indo viajar para o Mato Grosso, melhor me precaver. Quando chegar em São Paulo, atualizo minha carteirinha.”. Poltrona convencida, vacina dada. “Vai doer?”. “Só uma picadinha.” A mesma resposta há vinte e cinco anos e sempre dói. Picadinha no braço dos outros é carinho!

Devidamente vacinado, resolvo fazer uma graça. Saio da sala com a mão em cima do braço, fazendo caras e bocas, me contorcendo de dor. A reação da fila é imediata: alguns dão risada, um senhor me reprova, uma mãe pergunta se dói mesmo, e suas crianças choram assustadas. “É brincadeira”, tento consertar. Tarde demais... Melhor ir andando, antes que uma bolsa me atinja na bochecha.

Comentários

  1. Graça mesmo teria aparecer no posto de saúde com a cara pintada de amarelo clamando por um lugar na fila!

    Uma delícia saber da sua vidinha 'nova'.

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  2. muito bom! somos mesmo "viciados em abstinência". e os brinquedos do parque às vezes (muitas vezes) tomam outra forma. um bjo. saudades.

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  3. Anônimo2:52 AM

    Acho que faltou a colaboração do Zé Gotinha!

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  4. poxa.....adorei ler um pouco da suas aventuras em terras interioranas!!!!

    um beijo
    Luana flor

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