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Oito


Há quanto tempo não entrava naquela cidade? Oito anos. Lembrou-se nitidamente do dia em que foi embora, cheia de certeza que não voltaria nunca mais. Os estudos enfim terminados, ótimas perspectivas em sua pacata cidade natal, muito vontade de trabalhar, e um único ponto negativo: os amigos que tinha feito ficariam para trás. É a vida, acontece. Mas agora estava de volta. Será que os telefones continuam os mesmos? E as feições? Risadas?


Havia mandando alguns e-mails antes de sair e agora corria os olhos pelo computador da lan house, procurando alguma resposta. Havia uma, apenas uma; ao menos uma. Falava de um chá-bar. Um casal de amigos das antigas ia se casar. Chegando ao endereço marcado, um edifício de classe média cujo salão de festas já demonstrava a barulheira do evento, uma certa indecisão. Afinal, há quanto tempo não via aquelas pessoas, e também sentia culpa por ter sido um pouco displicente com eles; nunca foi muito boa em manter os contatos. Resolveu entrar com um sorriso no rosto.


Já na entrada do salão, sua melhor amiga da época. Dividiram apartamento e de uma forma ou de outra, foi sua principal confidente durante aqueles anos. Conversaram muito e pouco tempo depois já havia reencontrado praticamente todos. A maioria com cara de adulto, alguns casados e suas respectivas companhias, principalmente os futuros noivos, dois que ela nunca imaginara juntos. Faltava apenas um dos velhos amigos. Aliás, ela não tinha parado para pensar desde que voltara, mas era dele a maior parte da saudade que sentia.


Com ele, viveu uma pequena paixão. Foi um dos primeiros com os quais se identificara quando chegou. Aos poucos, a amizade virou romance, o romance ameaçou virar amor, e ela decidiu se afastar. O porquê nunca soube com certeza. Talvez medo de que algo realmente a prendesse por lá, ou simplesmente medo. É mais comum do que se pensa.


Foi se servir de um copo de chope quando ele entrou no salão. Estava diferente, mais velho, um pouco menos cabeludo, porém mantinha o alto astral e sorriso largo de sempre. Atrás dele, uma garota. Os dois de mãos dadas. Largou o copo e saiu por uma porta lateral, antes que ele a visse. Em menos de meia hora estava em casa, aos prantos. O porquê ela não sabia com certeza.


Ainda se recompondo em frente à TV, com um enorme pote de Häagen-Dazs nas mãos, escutou a campainha. Correu e ao abrir a porta, não soube disfarçar o susto de vê-lo ali, parado, olhando para ela. O brilho dos olhos dele refletiu nos lacrimejados olhos dela. Estes, por sua vez, brilharam com uma intensidade que não se via há muitos anos. Oito, mais precisamente.




Comentários

  1. Anônimo6:18 PM

    Ah, sensacional! Beju!

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  2. O senhor se supera a cada dia.
    Amo!

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  3. deve ter sido uma enorme surpresa para ela...

    dá até para se colocar no lugar, como sempre o que você escreve é bastante nítido.

    **beijooO**

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  4. Um ponto final cheio de reticências. E uma dúvida fica...se estava tão certa há 08 anos, por quê voltou? Seria por conta das reticências, que o ponto final provocou?

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  5. o 8 é cheio de simbologias, mistérios. não por acaso, deitado, ele significa infinito.

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  6. ahhh!! adorei!
    praticamente vivi o conto...
    ela voltou, muito provalvelmente, para tentar reencontrá-lo!!

    beijos ^^

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