Pular para o conteúdo principal

Madrugada


Insônia de novo. Merda. Sei que já devem ser altas horas. Conheço a madrugada pela quase ausência de ruído nas ruas. Acendo a tela do celular. O horário é o mesmo de sempre: quatro e um. De novo? Será isso algum sinal do sobrenatural para um cético como eu? Existe muita coisa que você desconhece, reles mortal. Foda-se.


Sempre me aconselharam a correr em caso de insônia. Eu não costumo correr nem de cachorro, quanto mais nas ruas, em plena madrugada. Mas depois de tantas noites acordando às quatro e um era melhor tentar algo diferente. (Se fico na cama, conheço bem o final). Logo ganho as ruas, vou num ritmo leve, preciso ajudar minha condição física a me levar para fora do bairro; ao menos.


Depois da segunda grande avenida, começo a me surpreender: estou indo longe demais. Ao melhor estilo Forrest Gump, arrisco uma avenida maior, e vou ainda mais longe. Estou suado, mas não cansado. Corro, e corro mais um pouco. Venço uma grande ladeira, aproveito a descida para respirar. Não paro, não quero parar.


Resolvo pegar uma transversal, cansei; da avenida. Meu ritmo continua igual. Passo vários cruzamentos, encontro vielas e portões (alguns latem ao me ver passar) mas não mudo meu caminho. Nem reto, devem ser mais de cinco horas, nem lógico. Penso re-conhecer esta rua. Sim. Sem querer (ou o contrário?) me levei à casa dela.


Quantas vezes olhei esta esquina, há quanto tempo não viro por ela. Paro. Caminhando me aproximo. Será que ela vai me reconhecer. Não seja estúpido, isso é óbvio. Será que vai gostar de me ver. (Não sei nem se eu me lembro dos seus traços exatos. Como uma foto linda, um pouco embaçada, foi esta a imagem que guardei, que minha mente quis guardar). Ouço gritos. Corro de novo, tudo acontece muito rápido. Reconheço-a abrindo a porta, ela corre, ela me vê (acho que tem o rosto ferido), grita muito, fala para eu correr – é brincadeira?, seu olhar se transforma em desespero.


Deitado no chão, consigo lembrar do filho da puta que, vindo por trás dela, disparou cinco tiros. Deitado no chão, finalmente me lembro do seu rosto; encara-me afogada em lágrimas. Deitado no chão, tento sorrir, mas engasgo; provavelmente em sangue. Deitado no chão, ela me tem em seus braços; aposto que sente meu coração inquieto. Ao fundo, bem baixinho, ouço a sirene chegando. Deitado, a cena começa a sumir e a sirene a aumentar.


Ser acordado pelo apito contínuo do celular me acalma, mas meu coração continua inquieto. O display marca oito horas e dois minutos.

...

Comentários

  1. Cara! Essa história de horário de insônia é bizarra, né? Eu acordo sempre as 3:31.
    Minha mãe, pior, às 3:33 (que, cabe lembrar, é a metade do número da besta).

    Como eu sempre digo: sonhar é uma merda. Seja bom ou pesadelo.
    beijos!!

    ResponderExcluir
  2. Nossa, que agonia!!!

    Pergunta: correr adianta? quer dizer, pelo menos no sonho?

    beijos...

    hum, o final me lembrou de um texto meu, não publicado, claro! =P

    ResponderExcluir
  3. Nossa, esse final é igualzinho ao de um texto da Helô!!!
    Meu Deus! Que Dèjá vú!
    huauhahua

    ResponderExcluir
  4. "Exatamente o dobro, será um sinal?"

    Acho que, para alguém cética como eu, é bobagem...

    Meu último texto tbm termina com alguém acordando, o meu de um sonho, o seu, de um pesadelo...

    interessante como os sonhos (bons ou ruins, não importa) estão presentes sobretudo na vigília!

    ResponderExcluir
  5. Anônimo5:50 AM

    A tensão sobe rápido. Tenho tido pouca insonia, merecia ter mais.
    Belo texto, quase um texto de diário.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  6. Anônimo6:12 AM

    Os sonhos guardam nossos medos e desejos mais secretos... em certos momentos quem dera fossem realidade!
    A insônia... falta ou excesso de medos e desejos ?

    ResponderExcluir
  7. hahaha mas o meu texto não chega nem aos pés do seus! Tanto que eu não postei no meu blog original...
    Mas se vc quiser eu te mostro! =)

    ResponderExcluir
  8. huauhauhauhaaa... Não sabia que era auto biográfico!!
    Então o sonho aconteceu mesmo?
    O meu também aconteceu e vive se repetindo desde então, a diferença é que eu estou sempre acordada!

    ResponderExcluir
  9. Anônimo9:34 PM

    meio nelson rodrigues, mas, ao invés de mórbido, um tanto lírico. acho os eventos muito bons, mas num texto curto podem parecer um pouco apressados. eu sugiro que você os desenvolva com mais calma num conto maior. as sucessivas surpresas/revelações vão ganhar ainda mais força.

    ResponderExcluir
  10. Aleluia! hahaha
    Pois é, acho que o problema estava no pc do trabalho mesmo...menos mal, né?!
    Bjs

    ResponderExcluir
  11. ué, cadê o post? Não gostou dele mesmo, né?
    Aaah, mas não devia ter deletado!

    Espero mesmo q 2009 seja um ano repleto de textos, ou melhor, repleto de fatos (bons) q nos inspirem a escrever!

    Espero q vc tenha um ano maravilhoso!


    **BeijooO!



    P.S.: é uma honra tê-lo como leitor!

    ResponderExcluir
  12. Agora que eu vim comentar o seu texto você deleta?! tsc tsc tsc... rsrs

    Aproveito então para desejar feliz ano novo pra você!! Que 2009 seja repleto de imaginações, criações e boas idéias e que destas surjam vários textos!! rs Mas fora isso, cheio de conquistas, realizações e coisas boas!! ^^

    Beijo

    ResponderExcluir
  13. Faço dos seus os meus votos para vc tb!
    Mta inspiração, sucesso e alegrias!!
    Bjão

    ResponderExcluir
  14. Anônimo11:33 AM

    Espero que seu Natal tenha sido cheio de luz e que este novo ano seja repleto de coisas maravilhosas e muitas conquistas!

    Ps.: Já que vc não responde e-mails, vai por aqui mesmo... rs

    ResponderExcluir
  15. Menino, cadê suas postagens?!

    ¬¬

    Saudade de algo novo por aqui!

    **beijoooos**

    ResponderExcluir
  16. Nossa!!! É verdade, quase me esqueço. Te envio por e-mail, pode ser?!
    Beijo e bom 2009!! =)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Era uma vez o que é Era uma vez um menino desengonçado. Que por pouco não chega ao primeiro aniversário; sobreviveu. Por vontade ou destino. (Aliás, que diferença faz?) Cresceu, crescia. E com ele, seus sonhos. Acordava de madrugada e dizia aos seus pais: “meu joelho tá doendo”. Ouvia sempre a mesma resposta: “sinal de que você está crescendo”. Voltava a dormir feliz, com dor, mas feliz. Sonhava grande, enorme, ganhando o mundo com seu sorriso gigante e abraço de elefante. Era uma vez um menino engraçado. Um garoto que ria, pegava errado no lápis, mas quase sempre acertava na palavra. Era quietinho e muito observador. Até os quinze era platéia solo de si mesmo. Ela adorava e ele se sentia à vontade. Disse que acertava na palavra? Mas só para quem ouvia. E ria. Era uma vez um menino calado. Era, porque deixou de ser. Deixou para trás o silêncio e conheceu o amor. Ou melhor: reconheceu. O amor que não se explica, aquele que apenas sente. O amor em si. Mes...
Podia se chamar vida Tem dias em que tudo acontece junto. Tem dias em que nada acontece. Tem dias em que a gente se sente mal. Tem dias em que a gente se sente. Tem dias em que dá saudade. Tem dias em que dá vontade. Tem dias em que nada pode. Tem dias em que tudo dá. Tem dias em que o tempo voa. Tem dias em que o tempo fecha. Tem dias em que o sono leva. Tem dias em que o pique vem. Tem dias em que se come muito. Tem dias em que nada desce. Tem dias em que se conhece o novo. Tem dias em que se repete o velho. Tem dias em que é preciso dar um passo pra trás. Tem dias em que é lindo dar três pra frente.