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Nunca para sempre


Aeroporto, quase três da manhã. Ele olhava freneticamente para o relógio, de dez em dez segundos. Ela preferia a janela; observava tristemente as gotas da fraca chuva que rolavam pelo vidro, com alguma movimentação de aviões desfocados ao fundo. O assunto havia acabado desde que se sentaram ali, à espera do inevitável vôo. Tanto para falar, e nada para dizer. Lembravam tudo que já tinha sido dito, e do nada que devia ter sido. Apenas esperavam. Ele se lembrou do bar em que chegaram juntos quatro horas antes.


Seria hoje, tinha que ser hoje. Aliás, havia demorado. Chegaram só os dois, no mesmo bar de sempre, com uma sensação completamente nova. Ambos sabiam que o lugar era o de sempre, mas a ocasião era a do nunca mais. Cada minuto mágico, e trágico. Os dois se divertiam, brincavam, conversavam, como sempre. E o tempo passava mais rápido do que nunca. Pediram a saideira. Degustaram momentos lindos do curto tempo que passaram juntos. Nunca uma longneck durara tanto.


Começavam as despedidas. Ela abraçava os garçons e garçonetes do bar, inclusive o dono; eles já eram de casa. Ele também se despediu, mas formalmente. Em breve estaria ali outra vez. Seguiram de táxi para o aeroporto, ainda rindo e brincando. Não tiravam os olhos um do outro, queriam registrar aquela imagem. Se fosse preciso, queimar até as retinas. Não podiam esquecer um do outro jamais.


Por um momento, ele pensou ter visto uma lágrima escorrer. Não. Era apenas o reflexo de uma gota no vidro que ela ainda encarava. Respirou fundo e ia começar a falar, quando o aviso da companhia aérea o cortou. Ela se virou e sorriu. “É isso então”. Dessa vez, ele não teve forças para encará-la. Levantou-se e fez questão de carregar a bagagem. Ela levava a passagem e o coração nas mãos. Não havia filas. Foram andando calmamente, respirando na mesma freqüência, como sempre. Torcendo para que o corredor não chegasse nunca.


O abraço durou uma eternidade para a atendente que via tudo. Para eles, um piscar de olhos. Ela se virou a caminho do corredor, mas ele a deteve. Os olhos dela brilharam e encararam os dele como sempre, como nunca mais iriam encarar. Colocando um envelope em sua bolsa, ele disse: “Quem sabe numa próxima vida, hein?”. Seus lábios quase tocaram os dela. Quase.


Ele se sentou na mesma janela em que ela estava há pouco tempo, enquanto dentro do avião, ela acabava de se acomodar. Lágrimas e gotas escorriam pelas janelas. Ela abriu o envelope e enquanto lia, deixou escapar em voz alta: “quem sabe...”.



Comentários

  1. É fato que poderiam ter expressado verbalmente aquilo que o coração pedia. Mas, com certeza, não seria tão bonito e tão real.

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  2. li, reli, e li mais uma vez! o que comentar? você já disse tudo, e muito bem dito! adorei!!
    as vezes as palavras simplesmente nos faltam, e o olhar diz tudo! pude sentir a tensão deles e todos os sentimentos que aconteciam entre eles!!
    um grande beijo ^^

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