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Terminal


Ponto de ônibus, dez da noite. Uma senhora de olhos baixos e óculos meia-lua olha para a rua. Parece até não perceber se sua condução já passou ou não. Olha para rua, pelo menos é nessa direção que seus olhos apontam. Mas não, ela não olha nada. Ou melhor, por dentro, vê seu marido esperando impaciente o jantar que ainda nem começou a ser feito. Ao mesmo tempo, enquanto formas de carro passam à sua frente, vê seus filhos brincando. O mais velho ainda não subiu. Está lá com os amigos, conferindo de tempos em tempos se sua mãe chegou. Em cima, a dois cômodos do pai, a menina caçula imagina seu futuro de princesa com uma boneca velha nas mãos. A senhora de olhos tristes não parece apressada. Ela simplesmente espera, sem esperar por nada.


Tem também uma menina bonita. No vigor da juventude. A cada sinal de movimento, pensa em seu ônibus, e pensa em seu prédio, e pensa em seu quarto e pensa em estar deitada ouvindo coisas bonitas do namorado distante. De tempos em tempos, pensa no que ele pode estar fazendo. Sente ciúmes, imaginários, que logo se transformam em sorrisos. Reais. Tão reais que fecha a cara, com medo que algum desconhecido a veja assim, sorrindo.


Do lado, um senhor perdido. Perdido mesmo. Chegou há pouco do interior. Procura por seu irmão, mas não sabe nem por onde começar. Tem vergonha de perguntar, receio de não encontrar. Duas linhas mal escritas o acompanham num pedaço rasgado de papel. E cinquenta e tantos anos numa ponta ansiosa de esperança. Olha para lá, olha para cá. Olha tudo e nada vê.


Encostado num poste sem luz, há um cara estranho. Com fones de ouvido e olhos puxados. Acende um cigarro, muda de posição, espreita o melhor lugar para estar quando o ônibus chegar. Observa aos outros, cantarola o que quer que esteja ouvindo. Inquieto, fixa seus olhos numa menina que sorri do nada. Disfarça rápido e sente-se invisível.


A senhora de óculos meia lua nem nota um homem com papel na mão que se aproxima. Afinal, o ônibus chegou e ela logo entra na fila. Ele a segue. Dentro, ela percebe que não há mais lugares vagos. Pensa em chamar a atenção de um jovem de fones de ouvido que acaba de sentar, mas uma garota bonita lhe oferece um lugar.


E o ônibus vai, chacoalhando por aí. Um senhor lê e relê um mesmo pedaço de papel, o jovem sentado observa uma garota de pé que sorri para a janela, a senhora que acaba de sentar decide fazer macarrão quando chegar, e assim, o ônibus vai. Ao som desafinado do cobrador, o motorista acompanha a tudo pelo retrovisor. Mas não vê nada, nada além do mesmo caminho de sempre.












Comentários

  1. histórias...a vida é cheia delas.

    Bravo.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. taí, goshtei. muito.

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  4. Scíola12:27 PM

    Fê, fazia tempo que não te fazia esta visita. Pensei que ler você aqui me permitiria ler melhor o atual você, com quem não consigo mais "conversar" tão constantemente. Constante é, contudo, a saudade de saber da sua vida. A propósito, gostei muito do texto, senti um amadurecimento literário desde minha última passagem por aqui. Beijos

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