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Às vezes


Às vezes sinto vontade de escrever, falar, mas nem sei por onde começar. Não é por falta de idéia. Curiosamente, penso que acontece o contrário. São tantas que nenhuma fixa, nenhuma fica o suficiente para ganhar forma. Sinto-me perdido numa grande nuvem, bem alta. A sensação não é ruim. Estranhamente confortável, mas dói pensar que talvez não haja fim. Talvez. Não adianta gritar, ou caminhar, estou sozinho nesse acolchoado mar de nuvem.


Às vezes olho para baixo e vejo tanta coisa boa. Muitas possibilidades. Pessoas, acontecimentos, vidas inteiras rolando e eu aqui, assistindo. Tem um cara parecido comigo ali embaixo, vivendo em meu lugar. Pensam que sou eu, digo, as pessoas que estão com ele pensam que sou eu. Falam com ele, riem com ele, dançam com ele. E ele lá, aproveitando (tomara) tudo isso em meu lugar.


Às vezes acho que ele me escuta. E sendo verdade, seria o único. Quando grito ou falo certas coisas, ele olha para cá, como se escutasse e me procurasse, sem nunca me encontrar. Seus olhos até cruzam o caminho dos meus, mas muito rapidamente, nunca fixam, nunca ficam. Logo, ele retoma seus passos por lá, e eu continuo andando nas nuvens. Incompletos, imaginando a chance única de sermos um.


Às vezes sonho que sou eu lá embaixo, vivo alguns daqueles momentos; os bons e os ruins. Não me vêem como um estranho, sou eu mesmo. O que eu acostumei a ver de cima, aparece na minha frente, falam comigo, riem comigo, dançam comigo. Mais cedo ou mais tarde, acordo nas nuvens. E sempre que “volto”, noto que o céu está mudado, e mudando, inquieto. Numa progressão de cinzas, a concentração de nuvens parece não poder parar. Tantas idéias, todo pensamento, tudo já é nada e tudo junto; tempestade. Daquelas de abrir o céu... estão sentindo aí embaixo?

... parece que começou a chuviscar.


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