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O vazio é cheio na coxia


Fim do terceiro ato: clímax máximo em todo o teatro; tensão em cena e apreensão na platéia. Apesar do tema recorrente – há séculos o texto é montado por todo o mundo, o público estava absorto. O protagonista se suicida, como esperado. Na sequência, sua companheira de ribalta passa a agir de forma completamente inesperada. Seu texto já não pertence à tão conhecida obra e seus movimentos parecem fora de controle. Ela corre para os fundos e logo depois as cortinas se fecham, separando um público atordoado de um corpo inerte no palco.


Metade do segundo ato. A peça flui bem, cativa os expectadores. Estes, enredados à história, não notam uma jovem caminhando pela lateral do teatro e entrando por uma porta escondida no canto direito do palco. Ela conhece bem aquela passagem, e logo ganha a coxia. Estava uma bagunça, estava um breu; estava como sempre esteve. Rápida, caminha até uma pequena sala cheia de objetos cenográficos. É silenciosamente cuidadosa em todos os seus movimentos, não pode ser ouvida pelos atores que se maquiam na sala ao lado. Exatamente como calculara, àquele ponto da peça, a sala dos objetos estaria vazia. Segura, despeja um líquido denso e amarelado numa pequena garrafa de vidro. Recoloca a rolha, devolve o recipiente e repete o caminho que fizera poucos minutos antes, mas não retorna ao assento que ocupava. Segue até a saída e deixa o teatro.


Início do primeiro ato. Uma jovem atriz caminha para a primeira reunião da nova temporada do espetáculo que protagoniza. Está nervosa e apreensiva, sabe que está a minutos de encontrar o namorado (seu colega de cena) que não vê há mais de um mês, desde que ele pediu-lhe um tempo no relacionamento. No hall de entrada, já vem a primeira surpresa. Ao encontrá-la, o diretor, muito envergonhado, diz que a protagonista mudara e que pelo embaraço causado, certamente puniria a produtora incumbida do telefonema que ela deveria ter recebido uma semana atrás. Antes que pudesse absorver o que ouvira, vem o segundo golpe. Mais doloroso, daqueles que precedem o vazio e a vontade órfã de desaparecer: seu namorado atravessa a porta, abraçando e beijando uma garota abraçando um texto com partes grifadas. Pego desprevenido, ele não mostra qualquer reação. Ela corre de imediato, para não mostrar nenhuma lágrima. Algum tempo depois, recompondo-se numa praça próxima, decide garantir sua presença na noite da reestréia.


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Comentários

  1. Anônimo9:51 PM

    excelente idéia, trabalho com as transições temporais também muito bons. acho que algum (pouco) cuidado a mais com a forma mesma do texto (às vezes apressada) pode deixá-lo, se é que isso é possível, ainda melhor.

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  2. Cada vez mais fico mais na dúvida se a vida imita a arte ou se é a arte que está real demais...

    Seja como for, só resta a nós, o público, aplaudir.

    Aplausos!

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  3. Muito legal essa coisa de contar a história de trás para a frente, original!
    Legal também essa brincadeira o tempo dos atos e com o tempo em si...
    Gostei muito da estrutura, sem contar que o texto é bem visual e o clima do teatro torna a tragédia ainda mais trágica! Tanto pela peça encenada quanto pelo próprio ambiente...
    No more works!
    Demais!

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  4. Uauuuu!!! Adorei a idéia, a forma em si... dá um certo suspense! A descoberta, a volta, o teatro, o enredo!!
    Parabéns (de novo, e de novo, e de novo...) rsrs

    Beijo

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  5. Anônimo10:22 AM

    Caralho que legal!

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  6. Bem feito pra esse ai! Se sou eu, faço o mesmo!
    Beijos
    Lady Macbeth

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