Pular para o conteúdo principal


Faces da vida



Ao acordar pela manhã tive uma daquelas sensações estranhas que misturam surpresa, medo e incerteza de tudo ainda ser (ou não) um sonho. Algo como os primeiros segundos pós-sono num hotel ou casa de amigos. Mas, ao contrário destes, não descobri onde estava nos instantes seguintes. Pior, muito pior. Tanto tempo olhando o teto e o restante do quarto, sem me levar à nenhuma conclusão, fez com que decidisse me levantar dali e checar o resto da casa.


Corredores, demais quartos, banheiro. Tudo me lembrava nada além de uma casa normal. Nada me indicava a mínima pista que precisava. Chegando à sala tive medo de ser flagrado nesta postura de detetive, espionando. Mas ora, eu estava dormindo sem que ninguém se importasse há minutos atrás. No mínimo, era um convidado. De toda forma, o silêncio provava o vazio e pude verificar, com a calma que queria, tudo o que precisa: armário por armário, a prataria, taças, toalhas.


A mesinha de canto, até então despercebida, chamou minha atenção. Sobre ela, muitos porta-retratos me encaravam. Fui chegando perto, encarando-os de volta. Mesmo de longe era fácil dizer que a foto principal, a maior delas, bem ao centro, tratava-se de uma família completa. Meu coração acelerou e eu diminui o passo. Porque quanto mais perto da foto, mais eu reconhecia um dos rostos e menos reconhecia os demais. A curiosidade que me levara até a foto não pode acreditar.


Ali, no meio de uma sala comum, segurava em mãos uma família completamente desconhecida com exceção de uma pessoa: eu. Sim. O homem que abraçava duas crianças enquanto afagado por uma mulher era eu; alguns anos mais velho, mas era – definitivamente – eu. O barulho do trinco me assustou e a foto caiu sobre mesa. Ao redor do retrato caído, muitos outros tinham os mesmos semblantes em situações e roupas diferentes. Reconheço meu rosto em todos, não reconheço ninguém. O curioso é que parecemos tão familiares.


Agora é o rangido da porta que me alerta. A mulher das fotos é a primeira a entrar, logo em seguida passam as duas crianças correndo. Antes que eu possa realizar porque nenhum deles me notara, uma quarta figura atravessa a porta. Este sim me reconhece. Eu me reconheço; com roupas que nunca usaria, rindo um riso que há muito não ria. Além dos anos a mais, via em mim tristezas e decepções a menos. Ficamos assim: diante do espelho. Do tempo, duas faces e dois mundos. Cada qual desejando ser uma parte do reflexo que é.



.

Comentários

  1. Afinal, o que resta de nós hoje, no amanhã?
    Espero que mais do que restou de mim ontem no hoje.

    (consegui...uhuuu)

    Bjs

    ResponderExcluir
  2. Anônimo9:53 PM

    o último parágrafo: um primor.


    (e a gente tem mais controle sobre essas faces do que - às vezes - parece.)

    ResponderExcluir
  3. OMG! Eu fiquei sem saber o que dizer...
    este texto é daqueles que a gente devora, sabe? Não pisca, não tira os olhos da tela...
    Bem, ele te aprisiona de tal maneira que a única coisa em que se pensa quando lê é: qual será o desfecho disto?
    Posso dizer: surpreendente! E inacreditavelmente bem escrito!
    Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  4. Acordar e ver sua vida diante de você? Fiquei um pouco perturbada, com medo do que está por vir...

    Não passava por aqui há tempos, que bom ler esse texto.

    Bjs

    ResponderExcluir
  5. Claro que sou eu, Most! Vc le meu blog? beijocas mil
    fe guima

    ResponderExcluir
  6. Gostei da maneira que teceu seu texto. Imagem muito nítida.
    Fiquei a pensar que encontro seria este do passado e do presente, e o qual proveito poderia ser tirado dele.
    Muito interessante e de certa forma assustador!
    Parabéns.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Era uma vez o que é Era uma vez um menino desengonçado. Que por pouco não chega ao primeiro aniversário; sobreviveu. Por vontade ou destino. (Aliás, que diferença faz?) Cresceu, crescia. E com ele, seus sonhos. Acordava de madrugada e dizia aos seus pais: “meu joelho tá doendo”. Ouvia sempre a mesma resposta: “sinal de que você está crescendo”. Voltava a dormir feliz, com dor, mas feliz. Sonhava grande, enorme, ganhando o mundo com seu sorriso gigante e abraço de elefante. Era uma vez um menino engraçado. Um garoto que ria, pegava errado no lápis, mas quase sempre acertava na palavra. Era quietinho e muito observador. Até os quinze era platéia solo de si mesmo. Ela adorava e ele se sentia à vontade. Disse que acertava na palavra? Mas só para quem ouvia. E ria. Era uma vez um menino calado. Era, porque deixou de ser. Deixou para trás o silêncio e conheceu o amor. Ou melhor: reconheceu. O amor que não se explica, aquele que apenas sente. O amor em si. Mes...
Podia se chamar vida Tem dias em que tudo acontece junto. Tem dias em que nada acontece. Tem dias em que a gente se sente mal. Tem dias em que a gente se sente. Tem dias em que dá saudade. Tem dias em que dá vontade. Tem dias em que nada pode. Tem dias em que tudo dá. Tem dias em que o tempo voa. Tem dias em que o tempo fecha. Tem dias em que o sono leva. Tem dias em que o pique vem. Tem dias em que se come muito. Tem dias em que nada desce. Tem dias em que se conhece o novo. Tem dias em que se repete o velho. Tem dias em que é preciso dar um passo pra trás. Tem dias em que é lindo dar três pra frente.
Madrugada Insônia de novo. Merda. Sei que já devem ser altas horas. Conheço a madrugada pela quase ausência de ruído nas ruas. Acendo a tela do celular. O horário é o mesmo de sempre: quatro e um. De novo? Será isso algum sinal do sobrenatural para um cético como eu? Existe muita coisa que você desconhece, reles mortal. Foda-se. Sempre me aconselharam a correr em caso de insônia. Eu não costumo correr nem de cachorro, quanto mais nas ruas, em plena madrugada. Mas depois de tantas noites acordando às quatro e um era melhor tentar algo diferente. (Se fico na cama, conheço bem o final). Logo ganho as ruas, vou num ritmo leve, preciso ajudar minha condição física a me levar para fora do bairro; ao menos. Depois da segunda grande avenida, começo a me surpreender: estou indo longe demais. Ao melhor estilo Forrest Gump, arrisco uma avenida maior, e vou ainda mais longe. Estou suado, mas não cansado. Corro, e corro mais um pouco. Venço uma grande ladeira, aproveito a descida para respirar. Nã...