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Palavra


Cheguei de madrugada e lá estava ele, deitado no meu quarto. Respiração tranqüila, semblante de um dia daqueles. Lindo, mais do que nunca. Deitei em silêncio, e enquanto minha respiração entrava no ritmo da dele, adormeci com um sorriso no rosto.


Acordei pela manhã e ele não estava mais lá. Desci rapidamente, procurando ouvir sua voz no andar de baixo da casa. Segui o doce timbre até a sala de televisão, e lá estava ele; ainda mais lindo sorridente. Ao me ver, parou de falar, encarou-me olho no olho e sorriu. A partir daí, saiu correndo pela casa, me levando pelas mãos. Parava o tempo todo e apontava para as coisas, me mostrando que sabe o nome delas todas. Cadeira, cadeira, pedra, carro, teofone. Passei a tarde inteira com ele, brincando, correndo, e descobrindo que tudo tem um nome. E que é tudo descobrir cada um deles.


A gente se divertiu um monte, junto e separado. Ele se diverte sempre, eu tento seguir o exemplo. Garanto que fiz do meu fim de semana o mais especial possível. Sempre o é quando volto para lá. Busco palavras para descrever a sensação de estar com quem a gente ama, depois de algum tempo sem estar. Procuro qualquer coisa que defina o que é reviver um bom momento. Invento termos que expliquem o valor de imaginar como seria aquilo que não é.


Não ia para casa há algum tempo, e mesmo quando ainda morava ali, já não olhava as coisas com o mesmo olhar. Era um olhar acostumado, entediado, sem graça. Um dia depois, preso sem ônibus na rodoviária, realizei que graças a uma delas, descobri de novo a minha vida. Cadeira, cadeira, pedra, carro... E a falta que me faz cada palavra.




Comentários

  1. Não há nada melhor no mundo do que poder matar as saudades...não há ninguém melhor no mundo do que uma criança para re-significar tudo...inclusive a saudade.

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  2. A gente sempre deve olhar as coisas como se fosse a primeira vez!
    E nem a palavrinha só nossa, brasileirinha, descreve a falta que a gente sente de vc aqui por perto, sempre. Saudade é pouco.
    Vou deixar meu recado de hj no plural, tenho certeza que ele pode ser colocado assim.
    Fêfe, nós amamos vc!
    beijos

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  3. Queria escrever com a facilidade com que vc escreve...
    é natural, fluído.
    Vem do íntimo e por isso significa tanto.
    E é tão simples. Como a vida, como a função das palavras.
    Como a cadeira, a pedra o carro.
    E a felicidade.

    Parabéns, vc tem um dom!

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  4. Sua cabeça estava balançando é? :)
    Lindo o texto... Ler seu texto me fez feliz... Dar valor a cada momento da vida, saber olhar o que é especial!
    E minha parte preferida: "Procuro qualquer coisa que defina o que é reviver um bom momento. Invento termos que expliquem o valor de imaginar como seria aquilo que não é."
    SENSACIONAL!
    Boa Fê, boa.

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  5. Anônimo4:53 PM

    bonita a construção da vida atrelada à da linguagem, da palavra. bela sacada. me lembrou o poema "à procura da poesia" do drummond.

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  6. Anônimo7:16 PM

    Oi!
    Não há definições para reviver os bons momentos... eles simplesmente são!
    Eu, em particular, adoro olhar as coisas que eram as mesmas coisas de antes, mas que deixaram de ser... a sensação é boa e diferente!

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  7. Bahh..esse vou ter que comentar!
    Faz tempo que vc vem me "perseguindo" com as coincidências. Acho que desde o post do Chico, das meninas do Chico, ou tuas meninas, como queira.
    Esse fds passei pela mesma coisa qdo fui visitar minha mãe. Minhas mães na verdade, pq tenho tanta sorte que tenho duas! Duas mães incríveis, diga -se de passagem. E sim, elas moram juntas!
    Enfim... senti a mesma coisa, mas ainda que qusiesse não saberia descrever como vc o fez.

    Adorei ler!

    Pâmela

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  8. Anônimo5:10 PM

    Lindíssimo!
    http://pitadascotidianas.blogspot.com/2008/10/teletransporte.html

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