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Cáeme



Um passeio pelo parque. Cachorros e crianças
brincam, adultos tentam queimar calorias alucinadamente. Eu não. Nem uma coisa nem outra. Quero sentir o verde, ter tempo e tranqüilidade para pensar numa história que preciso escrever. Meus editores já adiaram meu dead line duas vezes; a pressão é grande. Tenho comigo um caderno, uma caneta e a real esperança de que os ares do Ibirapuera clareiem minha mente. Vou para longe das bicicletas, patins, cães, quadras e procuro uma árvore tranqüila para me sentar. Sem muita demora, encontro uma. Logo começo a traçar as primeiras linhas. Ao contrário do que pensei ao escolher o parque, nenhuma idéia interessante. Giro a cabeça para trás, num gesto de ressentimento e percebo algo talhado na casca da árvore.


A curiosidade me faz sair da confortável posição e olhar atentamente para o que está escrito: k e m, com um coração em volta das letras. K? Seria Kátia, jovem apaixonada platonicamente pelo tio Marcelo? Sozinha, passeava pelo parque, escrevendo versos em seu diário... Ou então Karina, secretária amante do doutor Márcio, cujos encontros furtivos se davam no horário do almoço, sob as sombras das árvores do parque? E por que não uma história de amor comum – se é que histórias de amor podem ser chamadas assim – na qual uma moça e um rapaz, Kelly e Maicon, namorados desde sempre, selaram a paixão, escrevendo suas inicias no tronco que os apoiava em pleno sábado à tarde?


Outras histórias me vinham à mente. Marcos, Mariana, Mirela, Márcia, Kássia, Kleber, personagens viviam o começo, o meio e o fim de suas histórias em alguns segundos de passeio pela minha mente. Algumas trágicas, outras doces e alegres, casais de todas as idades, de todos os sexos, até mesmo uma provocação de dois adolescentes brincalhões podia ser o motivo daquela marca na árvore. A mais linda era a de um casal de idosos, que se reencontraram depois de muito tempo e reviveram o grande amor de suas vidas. Num passeio, ele talhou o mesmo desenho que fizera quarenta anos antes, e prometeu a ela passar por aquela árvore todo domingo, até o fim de sua vida, para lembrar e visitar seu grande amor. Pouco tempo depois ela faleceu, como já era esperado, e ele passou a cumprir sua promessa; todo domingo, contando-lhe as novidades e chorando baixinho na hora de se despedir.


Nunca saberei o real motivo, talvez nem os próprios K e M saibam em qual árvore registraram seu amor. Talvez eles tenham se esquecido. Talvez esse amor nem exista mais. Talvez K e M não existam mais... No meio de uma nebulosa chamada 'talvez', uma única certeza: a história escrita no meu caderno.















Comentários

  1. Anônimo7:20 AM

    O do idoso encanta, porque ele ao ter deixado a marca na árvore, eternizou seu amor, no verdadeiro significado da palavra. Sem essa de que até a morte os separe.

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  2. O mais importante é que eles existem dentro de você!
    Você os criou, você os inventou.
    K e M são seus! E do seu papel e de sua caneta, isso já não basta para que o amor deles REALMENTE exista?

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  3. Tenho certeza que a história ficou boa! Estarei presente quando você autografar os exemplares, não tenha dúvidas!
    Beijo

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  4. São tantas histórias em torno de apenas duas letras, K e M, dentro de um coração, que elas se perdem e se encontram... E cada um acredita ou monta a sua de um jeito diferente, de acordo com o que mais se identifica... uns mais românticos, outros mais "céticos"!!

    Eu, em particular, fico com a do idoso!!

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  5. Anônimo6:12 PM

    Karen e Mostarda!
    HAHAHAHA
    Besos!

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  6. existe amor para sempre? e amor que "não existe mais", existe?

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