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Convite ao passado


Cansado. Muito cansado. Terminara a aula quase meia hora além do habitual. Portas. Muitas portas. Fecha a do carro, passa pela do elevador e abre a da casa. Sem querer, pisa em alguns envelopes previamente jogados por debaixo da porta. “Amanhã eu vejo”, pensa. “Contas.”. Jogou-os na pasta. Abriu uma cerveja e ligou a televisão. Futebol. Melhores momentos do jogo em um dos melhores momentos do dia.


O bloco de envelopes, metade para fora da pasta, chamou-lhe a atenção. Notou que um deles era prateado. Não podia ser conta. Largou a cerveja e pegou-o. Em fonte elegante, no fundo prateado, lia-se: “Convite de Casamento.”. Mas quem poderia estar casando? Desde que se mudara para a capital não tinha estabelecido nenhum vínculo de amizade forte o bastante. A não ser que fosse alguém do trabalho. Mas nesse caso, não teria sido necessário o envio pelo correio. Curioso, abriu-o rapidamente. Não reconhecendo os nomes dos pais e do noivo, correu os olhos buscando o sexto nome; sua respiração cessou por alguns segundos, e sentiu congelar por dentro.


Passado o susto, examinou o convite. Tentou se lembrar dos nomes dos pais daquela garota, que um dia, importou mais que tudo em sua vida. E junto dessa lembrança, tantas outras surgiram, como pipocas estourando descontroladamente numa panela, até pouco tempo, quieta. Pegou outra cerveja e se atentou aos detalhes da cerimônia. Duas semanas daquela data, obviamente, em sua cidade natal. “Ela continua por lá.”. Deixou o convite com o verso virado pra cima e viu alguma coisa rabiscada à caneta. Leu a seguinte frase: “você sempre será o meu verdadeiro amor.”.


Foi se deitar, após rasgar o convite, decidido a esquecer tudo isso. Mas não conseguiu dormir. Bastava fechar os olhos que o mesmo turbilhão de pensamentos e lembranças o envolviam como um furacão. Uma coisa era certa: não iria ao casamento; por todos os motivos do mundo. Acabou se deixando levar por uma força invisível e adormeceu nessa nuvem de memórias.


Duas semanas depois, numa pequena cidade do interior, uma jovem entrava na igreja vestida de noiva. Atravessava o corredor com o coração nas mãos, pulsando como nunca. Parou em frente ao padre que dava início à cerimônia. Alguns minutos depois, enquanto todos os presentes se concentravam à cena que ocorria em frente ao altar, um rapaz entrava silenciosamente no fundo da igreja.


A noiva sentiu um frio dentro do peito, pensou em jogar o buquê para o alto e correr na direção que seu coração pedia, mas não se virou; não era preciso. Na outra ponta, ele sabia que aquele corpo, todo de branco, de costas pra ele, sentia sua presença. Quis correr por aquele corredor como um louco. Mas não fez nada; não era preciso. Virou para o lado oposto e se foi.


Do lado de fora da igreja, um homem descia a escadaria embaixo de chuva. Do outro lado, uma mulher se casava com pétalas de rosas caindo do céu. Entre todas as gotas que escorriam pelo rapaz, uma em especial deslizava por seu rosto. Mas não era feita de água; era igual àquela que, em frente ao padre, escorregava por baixo do véu.





Comentários

  1. Anônimo8:46 AM

    "No cantinho rabiscado no verso, ela disse meu amor eu confesso: estou casando mas o grande amor da minha vida é você"...é brega mas é verdade!

    Lindo texto e não podia deixar d comentar simplesmente porque há alguns meses passei por essa situação, com a diferença que não tive a coragem do rapaz, não tive forças pra ver alguém tão especial no altar com outra noiva.

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  2. muito bonito o final. talvez ele revele a beleza de alguma outra coisa: do que realmente importa. e "o que realmente importa" não combina com babaquice, hipocrisia e idealizações esvaziadas de sentido. às vezes, a gente tem que deixar as ilusões para trás. que bom que o seu personagem pode se dar conta disso. que bom.

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  3. muito bonito o texto mesmo!!

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  4. Ao Escritor Vaidoso,

    preciso dizer mesmo que gostei? Que gostei da narrativa, que te prende até a última gota, gostei dos 2 personagens aparentes, e dos muitos outros personagens latentes... latentes em nossa própria pele... pois em muitos, poucos ou quase todos os trechos podemos sentir q eles, somos nós mesmos...
    Acho q agora quero DOIS livros (ingual qui nem criança!!!) um de SLP e outro de crônicas....

    ;-)

    Lili.

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