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Bibliografia


Sofro de um mal terrível. Que me persegue, mesmo em sonho. Sou escritor ghost writter, e também me arrisco em alguns pseudônimos. Não por ser bom a ponto de me dividir em muitos; ao contrário. Penso que fingindo ser vários, posso crer finalmente que sou um. Sofro. Mas nem sempre foi assim.


Quando descobri que podia viver em casa, e que de casa escrevendo pelos outros, asseguraria meu presente: larguei tudo. Trabalho, carro, vida social. Enfim, a vida tranquila e caseira me trazia sobras em muitos aspectos, principalmente tempo. Ao lado dele, e sem pressa – com o perdão da redundância, terminei meu primeiro livro autoral; de contos. Já ali não assinei meu nome por medo do fracasso. Todavia, foi um sucesso. Público, crítica, eu. Na época, lia e relia aquelas páginas de cabo a rabo, sem enjoar de uma linha sequer. Esse sempre fora meu termômetro: se você consegue ler um texto seu um milhão de vezes, um milhão de pessoas conseguirá ao menos uma vez.


Meu segundo e terceiro livros saíram juntos. A coletânea de pequenos textos fora grande o bastante para dois. Batizei os gêmeos com o mesmo sobrenome (não o meu, claro, nem o do primeiro livro). Ambos surpreenderam, até mais que o primeiro, no começo. Para os outros, faziam todo o sentido. Para mim, não fizeram nenhum – não duraram afinal. Assim como o quarto, quinto, sexto. Sempre um novo eu, o mesmo fracasso de sempre.


Já perdi a conta de quantos livros escrevi ou quantos nomes assinei. Já não sei se tenho esperança de algum deles me salvar. Já lhes disse que sofro de um mal. Agora vocês sabem que mal é esse: sofro o mal que já fez bem, e a cada linha faz mais mal ainda. Arranco as folhas de um arquivo em branco. Na capa, um borrão disforme me transforma. Não consigo apostar em livro algum, se nem mesmo o primeiro, aquele que um dia acreditei que fosse meu, se nem esse eu leio mais.


Gozado como a vida nunca esquece e sempre cobra. Quando eu menos espero, ela aparece. Traz um sorriso amarelo no rosto e a dedicatória promissória nas mãos, tentando minha assinatura outra vez.



“E sem querer nenhum poder

Poder viver feliz pra se morrer em paz” (Vinicius de Moraes)


Comentários

  1. Existem Males que vem para o bem,mas vc tem que confiar mais nas suas linhas e entrelinhas ;)
    Eu acho que vc é um futuro Paulo Coelho...hehe
    Beijoo diarinho (L)

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  2. "Sonhei que brincava com o meu reflexo. Mas meu reflexo não estava num espelho, refletia uma outra pessoa que não eu".
    "Ela não sabe que é personagem. Parece uma coisa que se exteriorizou. Aliás, eu talvez seja personagem de mim mesmo. É incômodo ser duas: eu para mim e eu para os outros". Clarice Lispector

    Essas são as frases das quais comentei...tem a ver, não?

    ResponderExcluir
  3. e ter amor, e dar amor, e receber amor até não poder mais...

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  4. "E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm."
    (Pessoa)

    De quem um dia se apaixonou por você, por conta das suas palavras....

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