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A casa sempre ganha



– É muito simples, – explicava o velho homem – você tem uma semana para devolver o dinheiro com dez por cento em cima. Senão, a casa não é mais sua. – Mal sabia ele que a casa não era minha já naquele momento, aliás, nunca tive uma. Não deu tempo.


– Certo. Posso ir? – Levantei antes de o velho responder e saí apressado. Havia muito o que fazer antes da noite cair. Precisava resolver um detalhe fundamental para seguir rumo ao meu destino.


Algumas horas depois, estacionava meu carro próximo ao clube. (Clube, era assim que a gente chamava). Segui ágil e cauteloso. Rápido demais, levantaria suspeitas. Amedrontado também. Era muito dinheiro no bolso, era tarde da noite. Suando, cheguei à entrada. Bati na porta apressadamente. Três vezes e meia; era o sinal. Uma pequena janela na altura dos olhos foi aberta e o japonês careca apareceu. Saquei um dos maços de dinheiro e chacoalhei-o em seu nariz redondo. Um pouco mais aliviado, ouvia os resmungos do japa irem esvanecendo-se em meio aos ruídos do grande salão.


Nem olhei para os lados. Fui reto, rumo à mesa principal, a mesa escondida, nos fundos. Lembrei-me da primeira vez que fui convidado para participar dela. Um ano antes mais ou menos. Ganhei uma pequena fortuna aquele dia. Deslumbrado, virei habitué do loc..

– Que cê tá fazendo aqui? – uma mão enorme me parava pelo peito. Em um tom de voz mais baixo, fui também seco:

– Advinha? Empinar pipa, claro.

– Se eu fosse você, não viria com brincadeira. Principalmente depois do...

– ... Nem começa. Entra lá e fala pro Luceno que eu tenho grana e quero jogar com ele.

– Quanto?

– Duzentos. Mil.


Duas horas e meia depois estávamos eu, Luceno, seu all in e a casa dos meus pais na mesa. A tensão no local poderia acender um holofote. Se eu aceitasse a aposta, seria a última rodada. Nunca estive tão perto de ganhar daquele desgraçado. Meu par de reis podia tranquilamente liquidá-lo. Luceno me encarava com seus olhinhos finos e cinzas, por baixo de óculos velhos (com direito a esparadrapo num dos cantos). Dava para sentir que o resto da mesa também me encarava. Não me interessava:

– Quero ver. – Durante centésimos, os músculos da face daquele pilantra mafioso tremeram ao ver meus reis caírem à mesa. Na sequência, jogou seu às e rei perto do pote; foi a minha vez de tremer.


As cartas começaram a ser viradas. Primeiro o flop: dama, rei e às. Bom para ele, ótimo para mim. No turn, outro às. Ele não conteve o riso. Eu, mesmo sabendo que a chance de vencer um full house de às era menor do que uma agulha num campo de futebol, estava tranqüilo. Era como se eu já tivesse visto o rei que apareceria na última virada. Minha quadra transformou o Luceno numa figura tão deprimente que seria difícil descrevê-lo. Quanto a mim, sentia-me absolvido, impune, puro, um semideus.


Deixei a porta e o japonês careca para trás, mais assustado do que quando entrei. A mochila de dinheiro pesava horrores, apertei o passo. Meu nervosismo não me deixou perceber os dois caras que saíram de um beco assim que passei. Muito menos ver que um deles erguia uma pistola automática na minha direção. O barulho do tiro sequer foi processado pelo meu cérebro. Foi ele que a bala atingiu.


Olhando a mim mesmo ali do alto, estatelado sobre uma poça do próprio sangue, percebi por que meu semblante continha um sorriso: meu vício chegara ao fim, bem como as dívidas da família. Afinal, gastei metade da hipoteca em seguro de vida àquela tarde.

Comentários

  1. Anônimo7:43 PM

    Eu pude ver o local, o Luçeno, a mesa, a luz, o jogo. Senti a tensão das jogadas... a jogada final, passo a passo enquanto vc descrevia!!
    Muito bom! Ótima imagem!

    As vezes só morrendo para um vício acabar...

    *deu vontade de jogar pôquer!!* rsrs

    Beijo

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  2. Anônimo7:45 PM

    ps.: retomando um pensamento do comentário acima...

    "as vezes só morrendo para um vício acabar" acho que esse seria o jeito mais fácil... mas não o único...

    outro.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. A casa sempre ganha...ainda bem!

    (só espero nunca depender do pôquer para pagar minha dívidas, do contrário, certamente morrerei com ela!hahaha)

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  5. *minhas dívidas...

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  6. a mim, enquanto leiga em baralho que não sabe nem o nome dos naipes, cabe dizer apenas que está uma delícia o texto e que Luceno não tem cedilha ;). Ai, se a Estér lê isso...

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  7. Hahahaha..

    boa Silvinha. Mas a cedilha desse Luçeno é pra dar ênfase : P

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  8. eu podia jurar que este "luÇeno" com cedilha era mesmo em recurso estilístico... ainda bem que estava certa!
    huuhauhauha

    O Fernando não é do tipo que comete gafes como esta!

    Bem, a vida em si é uma aposta. E nós somos todos viciados,alguns em maior, outros em menor grau. Mas todos igualmente estrategistas e doentios na luta diária pela sobrevivência.

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  9. Anônimo6:50 PM

    muito inteligente o texto. mas "çe"?

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  10. Grande Chico!

    Beijo

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