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Aquilo que é meu



Estávamos todos na sala, vendo TV. Papai, muito sério. Desde o jantar que ele não deixava nem mamãe nem Ronaldo abrirem o bico. Eles tentaram por toda a tarde argumentar que a gente deveria dormir na vovó. Em vão. Obedecemos outra vez e enquanto íamos para a cama, campainha. Um moço esquisito, todo encapado, começou a falar. Ouvíamos tudo do corredor. Mamãe, do sofá. Eles conversavam sobre ser perigoso, sobre sair de lá. Papai não deu ouvidos, deu as costas e não deu chance para ninguém dizer mais nada: “para cama”, disse.


Fomos. Chovia demais, como há vários dias. Gostoso dormir na chuva. Pena que não durou muito. Não sei se porque quando a gente dorme tudo passa rápido (ou porque passou mesmo), mas logo que fechei os olhos, Ronaldo acendeu a luz. Ele me olhava assustado - notei que pisava na poça. Aliás, o quarto todo era uma poça de água e barro. Com medo, puxei o lençol e me encolhi, Ronaldo veio até mim. A casa tremeu, a luz apagou, telhas caíram, a casa rodou.


Em meio a tanto trovão, ouvia muitos gritos (pensei ter ouvido a voz de mamãe), Ronaldo pegou em mim e me abraçou, disse que tudo ia ficar bem, mas nada ficava: tudo se mexia, rápida e violentamente, eu não podia ver, sentia trancos, coisas batiam no meu corpo, água, muita água, meu irmão se desprendeu de mim...


Acordei, não sei quanto tempo depois, na escola. Muita gente sentada no chão da quadra. Muita água batendo no teto de metal. Procurei mamãe, papai e Ronaldo aquele dia. Naquele e em todos os outros que se seguiram. Tem gente que diz que viu Ronaldo me trazendo até a escola e voltando para procurar meus pais; ele nunca foi encontrado. Se encontrou papai e mamãe, gosto de pensar que sim.


Tem gente que pergunta se tenho medo da chuva. Eu abro um sorriso. Sempre que o tempo fecha, saio na rua. Abro os braços e deixo a chuva cair. Eu gosto de pensar que cada gota que sinto é um carinho, há muito tempo reservado para mim.


....

Comentários

  1. 1% inspiração, 99% dedicação! Adoro ver o resultado disso!
    ótima evolução!
    Beijo

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  2. Fiquei arrepiada enquanto lia.

    Impossível não pensar nas pessoas que estão agora passando por isso...procurando aquilo que é delas.

    Que cada um encontre, da melhor maneira possível...

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  3. Posso dizer que também me arrepiei enquanto lia...
    Triste, angustiante, real!
    "Eu gosto de pensar que cada gota que sinto é um carinho, há muito tempo reservado para mim." E não é?!

    Beijo

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  4. Estranho pensar que realmente exite muita coisa maior que a gente, como a chuva.

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  5. Belo texto.
    Como disseram, a inspiração vem com regularidade.

    Parabéns, Musta.

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  6. Anônimo6:09 AM

    muito bonito.

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  7. é difícil encontrar alguém que consiga falar de coisas tão reais com tanta poética...
    sabe que quase sempre não consigo escrever sobre a realidade? E se escrevo, é sempre seco, sem poesia, objetivo(como meu post anterior)
    Prefiro a abstração, ou melhor prefiro não, só assim consigo produzir alguma coisa... falta talento para transformar a realidade numa coisa tão bonita como você faz...

    P.S.: Saudades de passar por aqui!

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