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Entre linhas


A palavra entrelinhas tem sua origem semântica na aglutinação da preposição “entre” com o substantivo “linhas”. Entre as linhas. A princípio era usada relacionando-se a linhas de trem. Entrelinhas era tudo que se encontrava entre as linhas mais próximas de duas vias férreas adjacentes. Bom, eu também não entendi. Infelizmente o Aurélio estava ocupado e isso é tudo que diz sua primeira definição. Acontece que a segunda é bem mais interessante. Não pelo que ele disse; mais uma vez é seco e objetivo: o espaço entre duas linhas de um texto. Tudo que está entre esse “entre” aqui, e aquele ali, na linha de cima. Ou seja, espaço em branco; o nada. Não, não. Muito pelo contrário.

O dicionário não é tão burro assim (ele é o pai deles, certo?), e nos presenteia com outra definição: “o sentido implícito”. A que mais nos interessa nesse texto. O que é o sentido implícito? O que realmente está entre uma linha e outra? Aquilo que não foi dito? E mais importante, por que não foi dito? (...) Mas, será que não foi mesmo? Afinal, para haver entrelinhas, as linhas precisam ser escritas de uma forma que possibilite essa existência.

Quando escrevemos algum texto, sempre com a intenção de que alguém irá ler (mesmo que só nós mesmos), pensamos e sentimos muitas coisas. E certas coisas não podem, não devem ou ainda: é melhor que não sejam ditas. (Escritas, no caso do texto. Mas pode-se expandir o conceito para qualquer comunicação). Em contrapartida, é preciso que o lado de lá da mensagem as captem assim mesmo. Senão, qual o ponto em escrever se o mais importante não será compreendido, transmitido ao menos?

É uma delícia notar quando uma mensagem nas entrelinhas é lida por quem você queria. E dá para perceber quando acontece através das reações de quem a recebe. Essa pessoa pode responder na mesma moeda, continuando com aquele universo implícito, formando aí um diálogo cheio de mistério e compreensões exclusivas dos dois indivíduos. Ou até somente reagir à mensagem, sem necessariamente responder de forma igual. Mas sempre deixando claro que o entendimento foi alcançado.

O único perigo são as conjecturas. Nesse abismo que existe entre as linhas, muita coisa pode ser interpretada. E às vezes, nossa ilusão ou vontade de acreditar em algo nos faz ver o que não existe. Aliás, será que não existe mesmo? (...) Se o Aurélio pudesse me ouvir agora, ele pensaria que sou um louco por ter visto mais de trinta linhas entre as quatro que ele me mostrou.





Comentários

  1. Pra bom entendedor...

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  2. Não precisou dizer mais nada!

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  3. Brilhante! Nas linhas e entre elas.

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  4. O Aurélio se orgulharia dessa escrita. Você está com o domínio da técnica. E, quando alia a isso sua criatividade, você é realmente brilhante.

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