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Falante


Na primeira noite confesso que não fui muito com a cara dele. Eu tinha apenas seis anos, mas já gostava de cuidar do que tinha; meu quarto era o meu reino. Mas, meu quarto pertencia a um reinado maior: minha casa. E a rainha (mamãe) obrigou-me a aceitá-lo. Como se não bastasse, Marcelo Marmelo Martelo – obra-prima da literatura infantil – veio junto, bem em cima do tal criado-mudo.

Enquanto tentava pegar no sono, contando carneirinhos, escutei uma voz. Acendi rapidamente o abajur e nada. Não tinha nada diferente no quarto, exceto pelo novo item da mobília. Olhei para ele e juro que pensei tê-lo visto olhando para mim. Pode ter sido só impressão, mas tinha certeza que o livro fora deixado fechado. Apaguei os olhos e fechei a luz. Ou vice-versa (estava confuso). A voz voltou e continuou falando o que parecia ser o começo do livro. Decidi permanecer de olhos fechados e, aos poucos, a história do pequeno Marcelo foi se confundindo com a minha e quando percebi, a luz da manhã me acordava outra vez.

O mistério se repetiu nas noites seguintes. Literalmente. Já era a quarta vez que escutava Marcelo Marmelo Martelo (bota literalmente nisso). Comecei a pedir livros novos, e conforme eu crescia, histórias mais difíceis escutava. Detalhe: sempre que alguém entrava no quarto, o criado-mudo parava imediatamente. Só eu podia ouvi-lo.

Com o tempo, não precisava mais de histórias para dormir e nós (eu e meu criado-mudo) passamos a conversar, como amigos mesmo. Inclusive ajudou-me muito na época do vestibular, repetindo fórmulas e lendo anotações enquanto eu dormia – ele jurava que a técnica de memorização durante o sono funcionava. Se sim, não sei. Sei apenas que passei. Quatro anos depois estava formado, e não tinha mais tempo para ele. Chegava tarde do trabalho, cansado e dormia. (Isso quando não vinha do happy hour). Por vezes escutei-o tentando me chamar, mas o sono era mais forte do que eu.

Certa vez acordei e ele não estava lá. Como não notara isso de noite? Corri até minha mãe e perguntei por ele. “Eu doei para uma creche”, respondeu, estranhando meu interesse. Fico triste quando lembro que não tive chance de me despedir. Mas logo um enorme sorriso toma conta de mim, toda vez que penso nas dezenas de crianças – encantadas e atentas – escutando às nossas histórias antes de dormir.

Comentários

  1. Anônimo11:48 PM

    que bonito, fê. o texto me trouxe uma imagem: aquele cabelo de anjinho, os óculos meio tortos na cara e o olhar perdido em outros mundos... uma imagem tão forte que se estende (se estendeu mesmo) a outras crianças.

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  2. Anônimo6:57 AM

    Acho q o criado mudo foi ótimo professor...

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  3. Que lindo! Incrivelmente imagetico, outra bonita peÇa. Em poucos minutos pude lembrar de tantos "companheiros" de infancia. Preciso e doce.

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  4. Quem diria que aquele menino da perua ouvisse estórias do criado mudo quando dormia... Te fizeram muito bem, todas elas!
    beijos

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  5. nossa.. esse texto me emocionou..
    lindo mesmo fê!

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