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Inesquecível
Em um pequeno edifício, localizado acima de uma antiga drogaria, o palhaço Bozo despertava mais uma vez. Tristemente olhou o despertador de vidro rachado e foi até o pequeno banheiro. Ajeitou os tufos de cabelo vermelho como sempre fez em todas as manhãs de seus setenta e três anos. Vale dizer que dessa vez, seu vasto cabelo – da região lateral, é claro – não reluzia o mesmo brilho vermelho de outros tempos, e sim, um pálido tom rosado, em decorrência do descuido e enorme concentração de fios brancos. Mesmo assim, mantivera sua essência e formato do passado. Atou mais uma vez os cadarços de seu sapato 52, e preparou-se para enfrentar a escadaria que leva ao portão do edifício.
Era muito cedo e a farmácia ainda não abrira suas portas, mas podia-se notar alguns enfeites natalinos em seus muros. Tal detalhe despertou na memória do palhaço Bozo uma esperança vivaz. Lembrou-se que era Natal, e que isso trazia vantagens em sua eterna busca por emprego, e quiçá, pelo reconhecimento e alegria que tanto lhe aquecera o coração no passado. Em época de Natal, há um aumento significativo de vagas temporárias, principalmente na oferta de Papais Noéis pelos shoppings e outros estabelecimentos comerciais da cidade. Além do que, é uma época – teoricamente – em que há mais amor, mais respeito, mais carinho pelo próximo; época de um velho palhaço voltar a sorrir, ao fazer sorrir.
Tantos pensamentos fizeram o caminho do metrô passar voando. O palhaço Bozo passou pela catraca com um discreto sorriso no rosto.


Sorriso este que durou só até ser esmagado, literalmente, dentro do trem. Sempre que o palhaço Bozo entra em um lugar público, tem esperança de ser reconhecido. Mas aí se lembra que para ser reconhecido é preciso ser visto. E na cidade grande, ninguém olha para ninguém. O palhaço Bozo saiu pela catraca com acentuada tristeza no olhar.


O dia se passou e em todas as entrevistas o resultado foi pífio. Ninguém queria desacreditar o Papai Noel de sua loja, colocando um palhaço por baixo da fantasia. Alguns chegaram a caçoar: “Com esse nariz vermelho, você está mais para rena, mas essas vagas foram ocupadas.”. No final da tarde, enquanto já ia entrando tristemente pelo portão de seu prédio, reparou um garoto em uma cadeira de rodas, ao lado da drogaria.
Seu cabelo estava raspado, e seu olhar, visivelmente abalado, perdia-se no horizonte. Provavelmente, quem quer que o acompanhasse deveria estar comprando algum medicamento.
O palhaço Bozo desistiu de abrir o portão e se aproximou da criança, que virou os olhos para encará-lo. Por alguns instantes ficaram assim. Olhos nos olhos; vidrados. Até que uma vontade súbita de sorrir começou a tomar conta de ambos. O palhaço Bozo assistia à evolução de seu sorriso, refletido no sorriso do menino. Tirou um pirulito do bolso e pousou-o nas mãos do garoto, que em um movimento de pequeno esforço, beijou-lhe a ponta do nariz vermelho... Naquela noite, o palhaço Bozo e o menino dormiram, como há muito tempo não sonhavam.

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