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Era uma vez o que é Era uma vez um menino desengonçado. Que por pouco não chega ao primeiro aniversário; sobreviveu. Por vontade ou destino. (Aliás, que diferença faz?) Cresceu, crescia. E com ele, seus sonhos. Acordava de madrugada e dizia aos seus pais: “meu joelho tá doendo”. Ouvia sempre a mesma resposta: “sinal de que você está crescendo”. Voltava a dormir feliz, com dor, mas feliz. Sonhava grande, enorme, ganhando o mundo com seu sorriso gigante e abraço de elefante. Era uma vez um menino engraçado. Um garoto que ria, pegava errado no lápis, mas quase sempre acertava na palavra. Era quietinho e muito observador. Até os quinze era platéia solo de si mesmo. Ela adorava e ele se sentia à vontade. Disse que acertava na palavra? Mas só para quem ouvia. E ria. Era uma vez um menino calado. Era, porque deixou de ser. Deixou para trás o silêncio e conheceu o amor. Ou melhor: reconheceu. O amor que não se explica, aquele que apenas sente. O amor em si. Mes...
Dois mil e dez Começa com dois, e dois é bom. Acaba com dez, nota máxima. No meio, mil; preciso explicar? O ano novo já não é novidade, mas vem com tudo. Fora o óbvio (Copa, eleições e sonoridade), chegou chegando. Estamos no segundo mês e não houve um dia de Janeiro que não tenha visto a chuva. E nem a chuva viu Janeiro; eu, pelo menos, não vi. E o Carnaval vem aí... se continuar assim, você, que só agora parou aqui, já deve ter visto a mangueira na Sapucaí. Isquindô, isquindô. Rimando e rodando. 2010 promete. Mas promete tanto que é certeza que não vai cumprir tudo. Tudo bem. Fiz minhas resoluções no primeiro dia e vou acreditar nelas até o último. Para ser exato, nem lembro totalmente quais são (estão em boas mãos), mas sei do que se tratam. Sabe aquela vontade de abraçar o mundo? Para mim, esta vontade nunca foi tão literal. Quero abraçá-lo com carinho. Pedir desculpas pelos meus conterrâneos e fazer cafuné no pólo norte, enquanto cochicho no ouvido da Oceania que 31 de dezembro de...
Olhos bem fechados… Conferiu no mostrador quanto tempo de ar ainda restava em sua máscara. Quarenta e cinco minutos seriam suficientes. Saiu apressado, ganhou a rua adjacente e logo entrava no velho parque vizinho. Incrível como as árvores pareciam reais – como nos filmes. Foi ao canto escondido de sempre e, em poucos minutos, ela chegava. No abraço apertado podiam sentir o coração um do outro. Tocavam-se e roçavam-se freneticamente. O desejo beirava o incontrolável. Quando ameaçou arrancar a máscara, ela o deteve. Pediu que se acalmasse, pediu desculpas e sumiu no meio da paisagem artificial (com vontade verdadeira de ficar). Ele saiu pouco depois. Enquanto caminhava, lembrou-se de um velho que engraxava sapatos a duas esquinas do parque. Restavam quase vinte minutos e somente uma pergunta para fazer àquele homem. Em cinco, o avistou. Dois minutos depois, puxava o assunto. Perguntou se, no passado, teria este senhor experimentado aquilo que ele tanto almejava. Queria s...
Gostei Após vários finais de semana e noites de treino, suor, alguns pequenos desentendimentos, confusões, risadas, e muita coisa boa, ouvi o mais sincero dos comentários: eu gostei bastante. Vindo de uma criança de três anos, não há frase melhor. E sabe de uma coisa? Concordo plenamente. Gostei do primeiro dia de montagem e do processo de escolha do texto, gostei do novo diretor, gostei dos personagens e do desafio do meu especificamente, gostei dos figurinos e dos primeiros ensaios, gostei das maquiagens e das meninas vestidas de homem, gostei de fazer ao ar livre e de aprender uma nova dança, gostei de brincar com o corpo e falar com sotaque, gostei de ser emburrado e muito mais velho, gostei que não choveu forte, gostei do bigode e da bota, gostei da lua e de ser palhaço no meio da rua, gostei de todos que foram ver, gostei das surpresas, gostei da coincidência do meu pai ter estado ali quando criança, gostei da presença do pequeno curtindo a peça, gostei das risadas nas horas ines...
Escuta Falei dos cheiros e as memórias que eles trazem, mas agora prefiro calar e aproveitar outro jeito saboroso de lembrar: ouvindo. Definitivamente, as músicas marcam. Marcam época, pessoas, lugares. É impressionante o dom que determinadas canções têm para nos tocar em pontos específicos. E não só; às vezes nos trazem sensações exatas, mesmo quando não relacionadas a uma coisa única. Por exemplo: o prazer de dirigir na estrada, cento e dez, cento e vinte, cento e sessenta, ou ainda, quando nos ajudam a dormir antes que a cuca venha pegar. Em casos assim, geralmente, a gente não sabe nem quem canta ou de qual viagem estamos lembrando. Mas a gente ouve e sente. Ou seria o contrário? O tempo muda tudo até que nada do que foi seja de novo do jeito que já foi um dia. A metamorfose ambulante que somos, inclui, logicamente, nosso gosto musical. Bandas que adorávamos, de repente odiamos e chegamos a negar nosso passado, escondendo que um dia ouvíamos aquilo. Mas quando me refiro àquelas mús...
Rê começo Eles se conheceram sem querer, como é de praxe conhecer. Conversaram sem querer, mas não pararam de se entender. Interessaram-se sem querer, num momento em que não era para ser. Voltaram a se ver, novamente sem querer, mas agora pra valer. Foi aí que os lábios se encontraram por querer, no cinema em que não foram para ver. Não se desgrudavam mais, nem por querer, exatamente como tinha de ser. Viajaram cheios de vontade de querer. De querer se conhecer. Namoravam sem querer, até que um dia foram perceber: pagaram pra ver. Transformaram-se em pais, sem querer, se é que se pode dizer, mas que só podia ser. O amor aumentava junto do querer, junto do pequeno que só sabe viver. Decidiram ficar juntos, para valer, totalmente por querer. Comemoraram sua felicidade por querer dividir. Multiplicando-a para quem quisesse ouvir. Nova página estão prestes a ver. Sem querer saber como vai ser. Por querer ou sem querer, não há nada mais que se possa fazer. (para o irmão que sempre esteve aq...
Sem querer Tenho insônia. Já perdi a conta de quantas noites passei assim. Eu, comigo mesmo, rodeado, às vezes perdido de mim. Passo o tempo, no melhor sentido passatempo da palavra. Invento idéias, repito coisas que esqueci, e ao procurar ilusória companhia, encontro contentamento verdadeiro – desses que ficam mesmo quando acabam. Tranquilo, ansioso, elétrico e preguiçoso. Não é que eu não tenho sono; apenas não dá para dormir. Sou dois, três, na minha cabeça: mil. O que me espera, espero não saber. E faço questão que seja assim. Se eu desconheço o que será e quem serei, de nada adiantam as demais perguntas fundamentais. Quando? O quando é relativo e chega quando quer. (Acaba quando puder). Onde é sempre lá, e o porquê é porque sim. Aqui e porque não, são inércia e desperdício; respectivamente. O tempo passa, sem dó. Leva com ele as respostas, mas deixa as perguntas. De que lado você quer ficar? Quero aprender conhecendo, reconhecer aprendendo. A teoria e a prática, a forma e o conteú...